Você está aqui: Home Mabe Autobiografia Década de 90

Década de 90



Autobiografia-24

Sem Título, 1997 Óleo sobre tela, 102 x 127 cm

Tendo nascido no século XX, participo de alegrias e tristezas, de guerra e de paz, dos desequilíbrios socioeconômicos, ou de todos os acontecimentos do mundo como parte dele que sou. Como filho, fui abençoado pelo amor paterno e materno, coisa insuperável por qualquer bem material. Como pai, tive alegrias e momentos de tristeza. Postado na eterna corrente histórica entre o céu e a terra deste imenso universo, esta pequena vida sonha alto em busca de um mundo ideal, e vive intensamente cada dia de sua vida.

É preciso crer sempre no sonho e lutar para que ele se torne real.



Autobiografia-25

 

Tenho a sensação de que venho perseguindo os meus sonhos.

O primeiro deles remonta aquele dia em o meu pai declarou subitamente ”Manabu, vamos ao Brasil”. Como seria um país estrangeiro?  E os grãos de café? Os sonhos que eu alimentei no novo país, enquanto brincava caçando pássaros e pescando, variaram desde o estabelecimento de um novo recorde no arremesso de disco, de tornar-me um exímio jogador de beisebol, de ser um grande fazendeiro, até finalmente, o de ser um pintor, assumindo cada vez maior grau de objetividade em relação a minha verdadeira vocação.

Ainda quando trabalhava no cafezal, manifestei o meu desejo de ir a Paris, a fim de estudar pintura, criando embaraços a papai. Para ele, que levava a vida no extremo limite da austeridade como colono, aquilo não poderia ser nada mais do que a exacerbação de sonho. As crianças têm um projeto absurdo. Isso talvez seja privilégio delas.

Fui a São Paulo alimentando o sonho de ser pintor profissional e, no ano seguinte, recebi todos aqueles prêmios e a bolsa de estudos, realizando exposições em várias partes do mundo. Pensei então: ”Quero ceder este prêmio para um jovem. Quero contribuir para a realização de seu sonho”. Bafejado pela sorte, pude concretizar o meu sonho, num piscar de olhos. Mas ele não tem limites.


Autobiografia-26

 

Atualmente acalento o seguinte ideal: viver em sincronia com a época e produzir obras que, no futuro, possam ser avaliadas como sendo de Mabe. Para tanto, o caminho é longo. Já pintei, até hoje, cerca de três mil e duzentas obras e ainda produzo cinquenta ao ano. Examinando recentemente minhas criações percebo que tenho trabalhado excessivamente nos detalhes. Quero perseguir algo mais simples. Tenho sentido necessidade de mais tempo. Novos projetos surgem a todo instante.



Autobiografia-27

Autorretrato, 1997 Óleo sobre tela, 50 x 40 cm

 

Sabe, desde criança eu vivo no Brasil. Então, personalidade para mim é brasileiro, né? Mas rosto, nem adianta né? Cada vez ficando japonês, mais japonês. Mas sou criado no Brasil, então costume e pensamento muito brasileiro. Agora, a cor forte, essa cor forte é também o sol do interior do Brasil, do Noroeste. Sol quente e céu muito azul. Agora, lá não tem montanha, é um pampa, vai até cem quilômetros a mesma coisa, não tem montanhas, sempre mato. E fruta, por exemplo: gostoso, doce e colorido. Então, desde criança, terra vermelha, céu azul, frutas, passarinhos, papagaio, essas coisas. Muito sentimental e muita vida colorida também.

Depoimento gravado em 10/06/1997,

no Museu de Arte de Odakyo