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Década de 80

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Manabu Mabe e sua esposa,
Sra. Yoshino, no jardim
japonês de sua residência em São Paulo

Meu sonho é infinito e viajo pelo mundo da beleza. Aprender a manejar o belo e explorar a arte, significam travar uma constante luta comigo mesmo. O sofrimento e a alegria de produzir.

O que será que me faz ficar assim tão absorto? É o belo. O belo surge diante de mim cada vez maior e mais amplo. De que porção dele ser-me-á possível apoderar até que esta vida se queime por completo?

Autobiografia-28

Chuva de Primavera,
1980 Acrílica sobre
tela, 180 x 200 cm

 

Nunca fui aluno de nenhum mestre, tão pouco pertenci a qualquer escola. Possuo um estilo de pintura que eu mesmo desenvolvi, à custa de muito esforço e perseverança. A título de brincadeira, eu o denominei de mabismo. Mas esse estilo também vem sofrendo modificações com o decorrer do tempo.

As pessoas dizem que ele representa a fusão do Oriente e do Ocidente, sendo a expressão da poesia lírica, mas eu creio que a minha pintura representa a mim mesmo.

Autobiografia-29
Wakabayashi, Grassmann,
Aldemir Martins, Nilda,
Roberto Marinho, Mabe, Krajcberg, 1984

Pescar lambaris e bagres em riachos do pasto, colher cocos e goiabas, e brincar de correr atrás dos pássaros são como poesias líricas inesquecíveis de minha infância. O fruto vermelho do café, as folhas verdes, o céu azul do interior ainda hoje são retratados sobre a tela, e o sonho daquele jovem coberto de suor e poeira que cultivou a terra roxa ainda é o mesmo, sessenta anos depois, a alma produtiva e batalhadora pinta e apaga, raspa e torna a desenhar.

Autobiografia-22

 

Eu tenho muito que fazer ainda, muito que pintar, sempre que puder sentir alguma coisa diferente, um prazer, porque um quadro não é uma coisa que a gente faça um atrás do outro. Um quadro é um pouco da gente.

Tornou-se forte dentro de mim a idéia de composição e começaram a surgir traços negros, seja nas paisagens, seja na natureza-morta. Na verdade, Picasso também utilizou esses traços que são pinturas montadas. Continuei pintando assim por algum tempo, até que comecei a ansiar por mais liberdade. Abandonei as paisagens e fui adentrando no abstrato, baseado, apenas, na composiçã

 


Autobiografia-23

Mabe e seus irmãos, 1985

 

A nossa família, de início, era constituída por dez pessoas. Hoje somos setenta, incluindo os parentes por parte da minha mulher. Da minha família sou o filho mais velho. Depois de mim, Satoru, Michiko (falecido), Hitoko, Yoshiko e Sunao, estes dois últimos nascidos no Brasil. Uma das recordações mais marcantes que tenho é de quando papai solenemente declarou: “Manabu, vamos para o Brasil. É outro país. Vamos viver colhendo café”. Ao ouvir suas palavras aflorou-me, repentinamente, a imagem dos frutos vermelhos do café. Havia acabado de ler o livro Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe e, portanto estava eufórico com a perspectiva de aventura. Eu estava tão entusiasmado que não conseguia conter a alegria.