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Década de 70

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Vibração momentânea, 1955 Óleo sobre tela, 60 x 73 cm

No dia 14 de setembro toda família se reúne. É meu aniversário. Esta data me enche de prazer e evoca recordações sobre a minha vida. Aqui, no hemisfério Sul invariavelmente chove. Quando isso ocorria, nos tempos do cafezal, não se trabalhava, e eu podia pintar à vontade. Assim, a chuva deu origem ao pintor Manabu Mabe. Com certeza, é uma dádiva ser agraciado por ela no dia do meu aniversário, como sempre acontece.

Nessa época, para não fugir à regra, as azaléias cor-de-rosa do jardim e as carpas do lago são fustigadas pelas gotas de chuva.

Não me ocorre a lembrança de ter comemorado um aniversário sequer quando trabalhava na lavoura de café.

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Mabe e os Príncipes Herdeiros
do Japão, por ocasião dos 70 anos da imigração japonesa
no Brasil

Minha vida é bela. As coisas belas são o objetivo de minha vida.

A primeira exposição no Japão foi marcada para o período de 11 a 16 de agosto de 1970 e teve como tema principal a paisagem natural do Brasil. Foi um sucesso absoluto. Guiei o casal Imperial durante toda a exposição e este demonstrou particular interesse pela obra intitulada Amazonas. Ao final da visita, a princesa Michiko revelou-me: “Gostaria que o senhor realizasse suas exposições no Japão a cada cinco anos pelo menos”.

Em 1978, o casal esteve no Brasil a fim de participar dos festejos comemorativos dos 70 anos da imigração japonesa. Agradeci-lhes naquela ocasião a presença na exposição do Japão.

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Retrospectiva no Masp, 1975

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil organiza inúmeras exposições coletivas. Naturalmente, em cada uma destas exposições tenho viajado como embaixador cultural e é interessante como o governo trata muito bem os artistas, assim como os diplomatas também são extremamente atenciosos. Dezenas de exposições individuais realizadas no exterior foram levadas a efeito por promoção ou colaboração das embaixadas brasileiras em diversos países.

Viajando pelo exterior, passaram-se dez anos desde o início de meus contatos com oficiais de alto nível. Para quem foi criado no interior do Brasil, tudo foi um aprendizado, uma batalha para viver.

Ainda em 1978, realizei uma exposição retrospectiva no Japão que alcançou grande êxito. Entretanto uma grande tragédia me aguardava em seguida.

Sem-ttulo

Sem título, 1971 Óleo sobre tela, 180 x 200 cm

 

Pedaco-de-luz
Pedaço de luz, 1959 Óleo sobre tela,

 

Em 30 de janeiro de 1979, numa reunião na casa de Sanematsu Yutaka, meu secretário, um noticiário de rádio dá conta de que um avião de carga da Varig estava desaparecido. Assustado, Sanematsu me disse: “Os quadros da exposição foram embarcados naquele voo”. Fiquei mudo. Cinquenta e sete quadros ao todo, incluindo trabalhos da minha irrecuperável juventude. Praticamente todas as minhas telas mais importantes, as que me trouxeram os primeiros prêmios. Todas haviam sumido.

O primeiro pensamento que me ocorreu, depois do choque, foi: “Felizmente não foi a minha vida”. Quando pequeno, sempre que perdia alguma coisa, minha mãe dizia: “Manabu, este desaparecimento substitui a perda da tua própria vida”.

Decorridos quatorze anos, só agora acabei de entregar as últimas obras em substituição às telas perdidas. Estarão os meus quadros repousando agora nas águas geladas do Polo Norte?

Obra que deu o prêmio de melhor pintor nacional à Manabu Mabe, perdida em acidente áereo.