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Década de 60

Quando comecei a ser premiado em várias exposições, o Sr. Francisco Matarazzo observou: “Há muitas pessoas que o criticam opor manter a sua nacionalidade japonesa, após tantos reconhecimentos no Brasil. Eu não penso assim, mas que tal se você se naturalizasse?”. Aproveitei o ensejo da inscrição na XXX Bienal de Veneza para me naturalizar. Mamãe ficou calada. Bem posso avaliar o quanto a renúncia a minha nacionalidade deve ter significado para ela. Costumo brincar autodenominando-me de japonês latino, mas no íntimo me considero brasileiro.

Em 1960, conquistei o Prêmio Fiat na Bienal de Veneza. Lembrei-me do Aldemir Martins. Ele tornou-se um grande amigo, um verdadeiro irmão. Nas festas aqui em casa, algumas pessoas nos acham parecidos e ficam na dúvida se ele é japonês ou eu é que sou nordestino.


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Juracy Magalhães, o casal
Walter Wey e Mabe entre eles, 1960

A minha primeira exposição no exterior ocorreu em 1960, no Uruguai. Foi ao mesmo tempo, a minha primeira viagem ao exterior, desde que chegara ao Brasil. Convidado pelo governo uruguaio e, graças à ajuda do Sr. Walter Wey, da Embaixada do Brasil naquele país, alcancei grande popularidade pelas numerosas obras líricas modernas que expus.

Em janeiro de 1961, a convite da empresa Time-Life, estive em Boston, era minha primeira viagem aos Estados Unidos. Minha vida mudou. Contratos com marchands des arts, incursões pelos Estados Unidos e Europa. Era preciso abrir bem os olhos.

De Roma, Florença, Assis, Milão e Veneza para o verão ao norte da Itália, cruzando as montanhas Dolomites; ao sul, em Nápoles e Sorrento; passando pela Suíça, cheguei à tão sonhada Paris.

Relíquias, ruínas, museus de arte, obras originais... Fiquei emocionado com a Europa que vi pela primeira vez. Lá, convenci-me de que, na obra original há a presença do próprio artista. Compreendi que a pintura é o fruto do esforço e do tempo e que, tanto Picasso como Matisse pintaram despretensiosamente com traços de senso fino e espírito lúdico. Assim, concluí que é indispensável ver as obras originais.


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Juracy Magalhães e Mabe, 1960

 

Por ocasião da mostra Dez Pintores Nipo-Brasileiros, realizada nos salões da Pan-American Union, em Washington, o então Embaixador Juracy Magalhães, aconselhou-me a permanecer durante um período mais prolongado e pintar um número maior de obras.

Sua intenção era convidar-me para permanecer na residência oficial da embaixada e apresentar-me a colecionadores de arte nos Estados Unidos.

Fiquei lá 50 dias e, nesse período, produzi muitas obras e fui apresentado a vários colecionadores famosos, entre eles, David Rockfeller. Ele adquiriu três quadros meus e cheguei a visitá-lo, duas ou três vezes, na matriz do Banco Chase Manhattan.

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Roberto Campos e Mabe, 1965

 

Na época que estive em Washington, por volta de 1965, sob a assistência da embaixada brasileira, o Sr. Juracy Magalhães, embaixador brasileiro dos Estados Unidos (mais tarde chanceler e ministro da Justiça) apresentou-me ao Ministro do Planejamento, Sr. Roberto Campos. Por certo há entre nós grande compatibilidade de gênios, pois nossa amizade permanece. Quando ele foi designado Embaixador da Inglaterra, pude utilizar a embaixada de Londres como se fosse a minha própria casa e, nas recepções promovidas, fui apresentado às personalidades mais ilustres do mundo.

Da longa amizade que nos uniu, aprendi com ele como viver.

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Castelo do Mar, 1965 Óleo sobre tela, 160 x 160 cm

 

Depois de Washington a exposição seguiu para La Paz, Bolívia. Dela participaram Kazuo Wakabayashi, Tikashi Fukushima, Shigueto Tanaka, Rei Kamoto, recém-chegado do Japão, e eu.

Três dias antes da inauguração da exposição, ainda não haviam chegado os quadros de Fukushima e os meus. Com o passar do tempo, a aflição começou a tomar conta de nós. Decidimos pintar novas obras no local. O problema eram as telas. Conseguimos o tecido, mas faltavam os chassis, pois não havia madeira disponível e a derrubada de uma árvore era punida com absoluto rigor. Achamos madeira na fábrica de um industrial e fizemos um trabalho de carpintaria, antes mesmo da pintura. A exposição foi um sucesso e contou com a presença de três mil bolivianos aproximadamente.