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Década de 40

Auto-retrato

Autorretrato, 1949 Óleo sobre tela, 50 x 40 cm

A primeira vez que usei tinta a óleo foi em 1945. Naquele ano, uma intensa geada arruinou toda a plantação de café e fomos forçados a descansar. Vi uma caixa de tinta numa livraria da cidade e não resisti à vontade de experimentar. Em pouco tempo pintei avidamente paisagens e naturezas-mortas em papelões e tábuas de madeira, dissolvendo a tinta em querosene.

Transpus tudo com tenacidade física e intensa paixão. Ficava entusiasmado com tudo o que fazia. Dizia o meu pai quando eu era menino: "Você é muito exaltado, meu filho". À medida que desenhava, passei a pensar, sofrer e experimentar alegrias como se fora um desenvolvimento de mim mesmo e aprendi, então, sobre a importância do ato de criar.
   

Paisagem-de-Lins

Paisagem de Lins, 1949 Óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Naquela época, os meus estudos se baseavam na leitura de revistas de arte provenientes do Japão, ou de coleções de livros de arte. Mesmo assim, era muito difícil consegui-los na colônia, no interior da cidade de Lins, onde me encontrava distante 500 km da Capital, mas meus amigos, artistas veteranos, foram sempre incansáveis encorajadores deste estranho pintor-lavrador.

Com o término da Segunda Guerra Mundial e a derrota do Japão, surgiu entre os imigrantes japoneses o conflito dos grupos que acreditavam na vitória contra o grupo dos que não admitiam a derrota. Assim, com a morte de meu pai, o casamento e a posição de um quase nissei, encontrava-me em situação difícil. Estava entre o japonês e o brasileiro, entre o issei e o nissei.