Você está aqui: Home Mabe Autobiografia

Autobiografia ilustrada

Autobiografia

Decada de 20

Nasci em 1924, na localidade de Takara, na vila e atual cidade de Shiranui. A casa onde eu nasci era consideravelmente ampla, tinha nos fundos um espaçoso jardim japonês e, no pátio, um lago em que eu costumava nadar. Construir um jardim como aquele foi um desejo que sempre esteve presente em minha mente desde que imigrei.

Dos tempos de escola, lembro-me da professora Nogushi. Um belo dia, ela elogiou o desenho que fiz do guarda-chuva japonês, durante a aula, dizendo: “Muito bem desenhado. Vocês todos devem desenhar assim”. Este foi, com certeza, um dos primeiros estímulos a minha vocação de pintor.

   
Familia_Mabe

Decada de 30

Em 1934, meu pai, Soichi Mabe, em companhia de minha mãe, Haru, e cinco filhos, viajaram ao Brasil. O que nos esperava era um serviço novo e desconhecido. Mas havia uma missão a cumprir. Nós imigrantes buscávamos no Brasil um mundo novo para encontrar um caminho a vencer. Belo! Foi a minha primeira definição do Brasil. Cresci sem formação escolar especializada. Minha vida foi sempre orientada pela natureza. Planícies e mais planícies a perder de vista. Plantações de café, fazendas de criação de gado, florestas, caminhos de terra vermelha cortando a mata virgem, o canto dos pássaros, o ruído dos insetos, o barulho da queda das mangas. É indescritível a influência da natureza na formação da minha personalidade e no desenvolvimento das minhas qualidades de pintor. Ao aproximar-me de um fruto de mamão amarelo e maduro, corre um lagarto. É a lembrança que tenho dos idos de 1934, quando, aos 10 anos de idade, mudei para Birigui, cidade do interior de São Paulo. Desde criança sempre gostei de desenhar e trouxe para o Brasil os crayons que usava na escola primária do Japão. Lembro-me da natureza brasileira que se desvendou sob os meus olhos, os peixes nadando nas águas rasas das lagoas e os papagaios disputando uma goiaba madura. E quatro ou cinco anos passaram-se em arrebatamento. Voltei a desenhar novamente. Isto era possível apenas nas horas de folga do serviço de cafeicultura, como nos dias de chuva ou aos domingos.

   
Auto-retrato

Década de 40

A primeira vez que usei tinta a óleo foi em 1945. Naquele ano, uma intensa geada arruinou toda a plantação de café e fomos forçados a descansar. Vi uma caixa de tinta numa livraria da cidade e não resisti à vontade de experimentar. Em pouco tempo pintei avidamente paisagens e naturezas-mortas em papelões e tábuas de madeira, dissolvendo a tinta em querosene.

Transpus tudo com tenacidade física e intensa paixão. Ficava entusiasmado com tudo o que fazia. Dizia o meu pai quando eu era menino: "Você é muito exaltado, meu filho". À medida que desenhava, passei a pensar, sofrer e experimentar alegrias como se fora um desenvolvimento de mim mesmo e aprendi, então, sobre a importância do ato de criar.

Leia mais

   
Natureza-morta

Década de 50

De 1956 a 1957, iniciei os trabalhos não figurativos, mas a administração do cafezal estava tornando-se um peso demasiado para mim, pois absorvia todo o meu tempo.

Finalmente, vendo-me às voltas com grandes dívidas e cada um de meus irmãos tornando-se independentes, vendi o cafezal e fui a São Paulo determinado a viver como pintor.

Em 8 de outubro de 1957 mudei para São Paulo, levando minha mulher e três filhos, mas não foi fácil a vida nova na cidade. A vida de pintor profissional, pela qual tanto ansiara, era mais penosa do que havia imaginado e passei a pintar gravatas e placas.

Leia mais

   
Autobiografia-10

Década de 60

Quando comecei a ser premiado em várias exposições, o Sr. Francisco Matarazzo observou: “Há muitas pessoas que o criticam opor manter a sua nacionalidade japonesa, após tantos reconhecimentos no Brasil. Eu não penso assim, mas que tal se você se naturalizasse?”. Aproveitei o ensejo da inscrição na XXX Bienal de Veneza para me naturalizar. Mamãe ficou calada. Bem posso avaliar o quanto a renúncia a minha nacionalidade deve ter significado para ela. Costumo brincar autodenominando-me de japonês latino, mas no íntimo me considero brasileiro.

Em 1960, conquistei o Prêmio Fiat na Bienal de Veneza. Lembrei-me do Aldemir Martins. Ele tornou-se um grande amigo, um verdadeiro irmão. Nas festas aqui em casa, algumas pessoas nos acham parecidos e ficam na dúvida se ele é japonês ou eu é que sou nordestino.

Leia mais

   
Autobiografia-14

Década de 70

No dia 14 de setembro toda família se reúne. É meu aniversário. Esta data me enche de prazer e evoca recordações sobre a minha vida. Aqui, no hemisfério Sul invariavelmente chove. Quando isso ocorria, nos tempos do cafezal, não se trabalhava, e eu podia pintar à vontade. Assim, a chuva deu origem ao pintor Manabu Mabe. Com certeza, é uma dádiva ser agraciado por ela no dia do meu aniversário, como sempre acontece.

Nessa época, para não fugir à regra, as azaléias cor-de-rosa do jardim e as carpas do lago são fustigadas pelas gotas de chuva.

Não me ocorre a lembrança de ter comemorado um aniversário sequer quando trabalhava na lavoura de café.

Leia mais

   
Autobiografia-19

Década de 80

Meu sonho é infinito e viajo pelo mundo da beleza. Aprender a manejar o belo e explorar a arte, significam travar uma constante luta comigo mesmo. O sofrimento e a alegria de produzir.

O que será que me faz ficar assim tão absorto? É o belo. O belo surge diante de mim cada vez maior e mais amplo. De que porção dele ser-me-á possível apoderar até que esta vida se queime por completo?

Leia mais

   
Autobiografia-24

Década de 90

Tendo nascido no século XX, participo de alegrias e tristezas, de guerra e de paz, dos desequilíbrios socioeconômicos, ou de todos os acontecimentos do mundo como parte dele que sou. Como filho, fui abençoado pelo amor paterno e materno, coisa insuperável por qualquer bem material. Como pai, tive alegrias e momentos de tristeza. Postado na eterna corrente histórica entre o céu e a terra deste imenso universo, esta pequena vida sonha alto em busca de um mundo ideal, e vive intensamente cada dia de sua vida.

É preciso crer sempre no sonho e lutar para que ele se torne real.

Leia mais